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Desde as entranhas do monstro: movimentos populares nos EUA constroem resistência anti-imperialista

Marina Paula Oliveira

    O imperialismo que se expressa no trumpismo não será derrotado apenas desde fora. Sua superação passa, necessariamente, por uma resistência forte desde dentro, por organizações populares dos EUA que estão na linha de frente do combate.

    Diante de um capitalismo cada vez mais transnacionalizado, que organiza a exploração, a espoliação e a violência para além das fronteiras nacionais, torna-se igualmente necessário transnacionalizar as lutas dos movimentos populares.

    O imperialismo estadunidense costuma ser analisado a partir de seus centros de poder: a Casa Branca, o Pentágono, Wall Street. No entanto, há um outro Estados Unidos que raramente ocupa as manchetes - aquele construído pelas mãos de trabalhadores imigrantes, comunidades racializadas e movimentos populares que resistem cotidianamente às múltiplas faces da dominação. Olhar para esse “outro lado” é fundamental para compreender as fissuras internas do próprio imperialismo.

Solidariedade internacional no coração do império

    No último dia 22 de dezembro, estive em Nova York para uma série de encontros com companheiros e companheiras de movimentos populares. Foram reuniões marcadas por densidade política e afeto coletivo, nas quais se compartilharam os desafios enfrentados no interior dos Estados Unidos e se reafirmou a solidariedade internacional como princípio organizador da luta. Na mesma ocasião, participei de um grande encontro com cerca de 200 pessoas, articulando diferentes iniciativas em defesa da Palestina.


    A cena foi profundamente emocionante. A comunidade palestina estava amplamente mobilizada e assumia a condução do processo político, organizando a resistência desde dentro do principal sustentáculo do Estado de Israel. Ver a luta palestina florescer com tanta força no coração do imperialismo evidencia que a solidariedade internacional não é um gesto simbólico, mas uma prática concreta, cotidiana e, muitas vezes, arriscada.

    De Nova York, segui para Los Angeles, onde me encontrei com os companheiros do Sindicato dos Jornaleros, do Sindicato dos Inquilinos e da histórica Union de Vecinos. Ao longo de reuniões, rodas de conversa e visitas a diferentes territórios, sempre acompanhada pelas lideranças locais, pude conhecer de perto experiências organizativas profundamente enraizadas nos bairros populares da cidade.

    Essa vivência teve um impacto pessoal e político significativo. Vivi nos Estados Unidos durante um ano, em 2012, no estado de Iowa - uma região conservadora e base política do Trumpismo. Naquele período, não tive contato direto com os movimentos populares estadunidenses. A experiência recente em Los Angeles me permitiu uma compreensão muito mais qualificada do imperialismo dos EUA, não apenas como força externa, mas como um terreno permanente de disputas internas, atravessado por resistências populares.

    Chamou atenção o fato de que a maioria dos quadros e dirigentes desses movimentos é composta por imigrantes, especialmente latinos. Los Angeles concentra a maior população de mexicanos fora do México e uma das maiores comunidades salvadorenhas fora de El Salvador, entre tantas outras. Suas famílias migraram em busca do chamado “sonho americano” e, com o tempo, compreenderam que ele nunca existiu. Diante da exploração extrema, a alternativa foi construir coletivamente condições mínimas de vida e dignidade.

Novas formas de organização no mundo do trabalho precarizado

    As transformações recentes no mundo do trabalho também remodelaram as formas de organização popular. À primeira vista, causa estranhamento o uso da categoria “sindicato” para trabalhadores migrantes que não estão formalmente sindicalizados, mas que se organizam em estruturas próximas a cooperativas, buscando maior poder de negociação coletiva, por meio do Sindicato dos Jornaleros, trabalhadores que trabalham por jornada de trabalho. O mesmo ocorre nas lutas por moradia, em que os movimentos se estruturam como sindicatos de inquilinos.

    Essas organizações apresentam forte capilaridade territorial, mantêm jornais e rádios próprios e constroem relativa autonomia financeira por meio da produção e venda de materiais políticos, como camisetas, cartazes e panfletos. Trata-se de uma criatividade organizativa que responde diretamente às condições de precarização extrema impostas pelo capitalismo contemporâneo.

ICE

    Outro elemento central é o desenvolvimento de estratégias de segurança coletiva diante da ofensiva brutal do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE). As comunidades estruturaram redes de vigilância comunitária que envolvem moradores, ambulantes, pequenos comércios e até filiais de grandes redes transnacionais. 

    Movimentações suspeitas são rapidamente comunicadas às lideranças, e as famílias são orientadas sobre quando circular ou se proteger. Em um contexto em que Donald Trump volta a qualificar esses movimentos como “terroristas”, essas práticas de autoproteção tornam-se uma questão de sobrevivência.

    Nos últimos meses, essa realidade desencadeou uma ampla onda de protestos contra o ICE em diferentes estados do país. Mobilizações ocorreram em mais de 50 cidades dos Estados Unidos, reunindo milhares de pessoas em resposta à violência generalizada e aos assassinatos registrados durante operações federais. As manifestações integraram uma jornada nacional de lutas - incluindo paralisações, atos coordenados e protestos em capitais estaduais - que denunciaram não apenas a atuação do ICE, mas o conjunto das políticas migratórias restritivas implementadas pelo governo Trump.

Protesto realizado em San Diego, na Califórnia, em 9 de janeiro de 2026.

“Nuestra América não termina no México”

    Por fim, uma das falas mais marcantes ouvi do Sindicato dos Inquilinos e da Union de Vecinos, em Los Angeles: “Nuestra América não termina no México”. A afirmação expressa o reconhecimento, por parte das comunidades latinas nos EUA, de que fazem parte de Nossa América, tal como formulada por José Martí. Mais do que uma identidade cultural, trata-se de uma posição política: a de uma resistência anti-imperialista que nasce no interior do próprio império e busca se reconectar às lutas dos povos do Sul Global.



Transnacionalizar as lutas para enfrentar o capitalismo global

    Diante de um capitalismo cada vez mais transnacionalizado, que organiza a exploração, a espoliação e a violência para além das fronteiras nacionais, torna-se igualmente necessário transnacionalizar as lutas dos movimentos populares. 

    As iniciativas de solidariedade internacional entre os povos não são complementares, mas estratégicas: permitem compartilhar experiências, construir leituras comuns sobre o imperialismo em suas múltiplas formas e fortalecer respostas coletivas à ofensiva do capital global.

    Enfrentar a violência imposta exige também abertura para compreender as transformações do mundo do trabalho e seus impactos profundos nas formas de organização popular. 

    O imperialismo que se expressa no trumpismo combina militarização, racismo, misoginia, criminalização da pobreza e precarização extrema do trabalho. Ele não será derrotado apenas desde fora. 

    Sua superação passa, necessariamente, por uma resistência forte desde dentro, construída por organizações que, mesmo com recursos escassos e sob perseguição permanente, estão na linha de frente do combate e precisam ser valorizadas, protegidas e fortalecidas.

    Observar esses processos nos obriga a romper com visões simplificadas sobre os Estados Unidos. Mesmo no coração do sistema, há povo organizado, há luta e há esperança. Há uma Nuestra América viva, que resiste - desde as entranhas do monstro.


Escrito por:

Marina Paula Oliveira é doutoranda, mestre e graduada em Relações Internacionais pela PUC-Minas. Atualmente é pesquisadora do Núcleo de Pesquisa de Geopolítica, Integração Regional e Sistema Mundial (GIS/UFRJ) e do Centro de Estudos Latino-americanos (CELA) da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Marina integra a coordenação estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) e participa do Movimento Brasil Popular (MBP). Autora do livro “O preço de um crime socioambiental: os bastidores do processo de reparação do rompimento da barragem em Brumadinho”.



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