As novas rotas do hemisfério sul e a reconfiguração geoeconômica do continente
Diante de uma ordem mundial em transição, marcada
por um reordenamento das cadeias globais de valor e dos fluxos logísticos
mundiais, a América Latina vem logrando uma posição central na conjuntura
internacional. Partindo de um panorama histórico, as rotas comerciais
configuram-se desde sempre como importantes corredores de mercadorias,
capitais, informações e poder, onde a superação das barreiras geográficas vem
paulatinamente tornando-se objeto de disputa e um ponto de inflexão na
geopolítica logística contemporânea.
O Canal do Panamá, que segundo a Autoridade do Canal
do Panamá (2025), foi responsável por cerca de 5% a 6% do comércio marítimo
mundial e por conectar mais de 1900 portos em 170 países, é historicamente um
dos principais eixos que conecta as artérias do comércio internacional,
sobretudo a região entre a Ásia e a costa leste dos Estados Unidos e os
mercados emergentes do Atlântico Sul. No entanto, a partir de 2023, uma série
de fatores críticos impuseram restrições operacionais ao Canal, colocando em xeque
sua primazia.
As mudanças climáticas, - associadas ao fenômeno El
Niño - com secas severas e redução de chuvas, ocasionaram uma queda do
nível do Lago Gatún, que abastece as eclusas com água doce, diminuindo o número
de navios e aumentando o tempo de espera. Como consequência, observou-se um
crescente aumento das filas, com o redirecionamento das rotas pelos armadores,
onde segundo relatório da Drewry Maritime Research (2025), o custo do frete
marítimo entre a Ásia e a costa leste americana aumentou em até 35% em
2025.
Com efeito, diante dos desdobramentos geopolíticos e
a vulnerabilidade dos chockepoints, as grandes potências globais vêm
articulando suas estratégias de infraestrutura e rotas alternativas. Essas
estratégias passam pela articulação de alianças em torno do estímulo de
investimentos de grandes projetos, colocando em projeção os debates acerca de
infraestrutura, desenvolvimento e integração regional em um mundo com uma
logística global cada vez mais interdependente.
Diante disso, a América do Sul surge como um palco
estratégico nesse tabuleiro, sendo um território disputado para o
empreendimento das novas rotas do Hemisfério Sul. A exemplo disso, a Ferrovia
Transoceânica Brasil-Peru-Bolívia é um dos principais projetos de
infraestrutura terrestre do continente, com custo estimado de US$14 bilhões,
com destaque a expressiva participação chinesa no empreendimento. Segundo a
INFRA S. A. (2025), o projeto visa conectar os centros produtivos do
Centro-Oeste brasileiro aos portos peruanos no Pacífico, reduzindo em até 10
dias o tempo de transporte de commodities brasileiras para a Ásia.
Figura 1: Mapa do projeto de integração ferroviária Transoceânica Brasil-Peru-Bolívia
Imagem: Uol
(2025) |
O Corredor Rodoviário Bioceânico, soma-se como um outro projeto de corredor bioceânico terrestre, ganhando evidência como rota alternativa da ligação Atlântico-Pacífico, sem a passagem pelo Canal do Panamá. Encabeçado pelo Chile, Argentina, Paraguai e Brasil, o projeto busca construir uma rodovia de mais de 2.400 km que conecta os portos brasileiros de Santos e Itajaí aos portos chilenos de Antofagasta, Mejillones e Iquique. Essa infraestrutura, prevista para estar operacional em 2027, promete reduzir em até 40% os custos logísticos, consolidando-se como a principal via de cooperação e exportação agroindustrial da região.
Figura 2: Traçado do Corredor Bioceânico de Integração entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile
fonte: Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte
(2025) |
No Peru, o porto de Chancay, controlado pela COSCO Shipping, avança como peça central do “Plano B” da China. Por meio de uma aliança com o Brasil, o gigante asiático pretende conectar, por ferrovia, o litoral pacífico ao porto atlântico de Santos. Isso permitiria uma rota direta entre a Ásia e a costa atlântica brasileira, fortalecendo o eixo logístico transpacífico-chinês. Esse megaprojeto, portanto, trata-se de uma manobra geopolítica de alto nível, atravessando regiões andinas e amazônicas e oferecendo vantagens logísticas com uma economia no transit time, podendo chegar a 10 dias.
Figura 3 : Porto de Chancay, Peru
Fonte: CGTN, 2025 |
O Corredor Interoceânico do Istmo de Tehuantepec no México, é um outro megaprojeto de desenvolvimento que pretende conectar os oceanos Atlântico e Pacífico por ferrovias de alta velocidade e rodovias para o transporte de cargas, visando competir com o canal do Panamá e figurando-se como uma alternativa norte-americana nesse contexto. O projeto pretende alavancar a economia da região do Istmo de Tehuantepec criando zonas industriais, reformando e expandindo portos, construindo gasodutos e desenvolvendo uma das regiões mais pobres do país.
Figura 4: Hub logístico do Corredor Interoceânico, México. |
Fonte: UTPAQP, 2025 |
Entretanto, esses projetos não estão isentos de
riscos. A reboque das expectativas de desenvolvimento regional e ampliação das
oportunidades comerciais, por meio da integração entre os grandes mercados
emergentes, emergem os debates sobre os impactos e riscos socioambientais nos
territórios onde passarão os projetos. No caso da Ferrovia Transoceânica, o
traçado previsto atravessa terras indígenas reconhecidas e áreas de reserva
extrativista. Segundo declaração do IBAMA, isso gera riscos de deslocamento forçado,
perda de territórios tradicionais e ruptura de modos de vida ancestrais.
De acordo com os dados da ONG WFF- Brasil, a
Ferrovia Transoceânica corta áreas sensíveis da Amazônia, afetando a
biodiversidade e territórios indígenas. Enquanto o Corredor Bioceânico impacta
comunidades locais e requer complexas harmonizações alfandegárias e logísticas,
ainda não plenamente resolvidas (CEPAL, 2025). Outro aspecto a considerar é o
risco de aumento das emissões de carbono. Para a OCDE (2025) , embora o
transporte ferroviário e marítimo sejam, em geral, menos poluentes que o
rodoviário, a abertura de novas rotas pode estimular a expansão da atividade
econômica em áreas de alta sensibilidade ambiental, resultando em maior pressão
sobre os ecossistemas e em um aumento indireto das emissões.
Portanto, a consolidação dos mega projetos supracitados são algumas das iniciativas dos chamados projetos de mega infraestruturas, que projetam uma infraestrutura estratégica moderna, evidenciando o continente em um novo patamar de complexidade e foco no desenvolvimento logístico. As disputas pelos corredores de escoamento, conflitos bélicos, pressões geopolíticas e tarifárias, controle de fluxos e os dilemas socioambientais, são alguns dos elementos que compõem esse quadro de reconfiguração tecnológica e produtiva. Frente a um cenário de redistribuição do poder geoeconômico do continente e uma transformação logística como extensão da política internacional, a América do Sul precisa construir sua autossuficiência logística considerando essas variáveis em disputa.
Escrito por:
Daniel Vitor é pesquisador do Grupo de Pesquisa GIS (Geopolítica, Integração Regional e Sistema Mundial) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde integra a linha de pesquisa em Infraestrutura Estratégica. Seu trabalho concentra-se na geopolítica da transição energética e no papel das grandes infraestruturas na conformação das dinâmicas geopolíticas contemporâneas, com especial atenção à estratégia internacional da China, à interconexão energética e à política industrial. É bacharel em Relações Internacionais pela UFRJ e alumni da BRICS International School, realizada em Moscou, na Rússia.Daniel possui experiência profissional no setor de energia, tendo atuado no apoio a projetos internacionais de infraestrutura e a operações logísticas relacionadas às cadeias globais de suprimentos.

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