A consolidação do rentismo petroleiro e o aprofundamento da dependência guianense
De 2018 até hoje, o PIB nominal guianense se multiplicou por 7. Passou de 4,79 bilhões de dólares para 33,96 bilhões em 2026, representando a maior taxa de crescimento do mundo, segundo dados do FMI. O rápido avanço foi impulsionado pela produção petroleira recente no país, iniciada em 2019, com campos descobertos a partir de 2015. O processo deu ao país o apelido, na mídia brasileira e internacional, de “Dubai da América do Sul”. Além do crescimento acelerado, as descobertas tornaram a Guiana um dos países com maior quantidade de petróleo per capita do mundo: hoje, as reservas comprovadas da Guiana são de 11 bilhões de barris, ou 75% das reservas brasileiras, mesmo com uma população 254 vezes menor. O modelo extrativista pôde garantir bons resultados nos “números frios”, mas que não se refletiu diretamente em uma melhora na qualidade de vida no país. A atividade, gerida com um dos royalties mais baixos do continente, condiciona o país à uma participação pequena nos ganhos, não fornece as ferramentas necessárias para enfrentar problemas estruturais da economia do país e posiciona a Guiana como dependente da atividade primária, que pouco requer mão de obra local e não diversifica a economia. As intensas movimentações geopolíticas postas em marcha em 2026 parecem pavimentar, cada vez mais, o caminho rumo ao extrativismo sem limites no país.
Logo no início do ano, em 3 de janeiro, o presidente venezuelano Nicolás Maduro foi sequestrado, junto de sua esposa, por forças especiais do exército estadunidense. Acontece que o líder do país vizinho da Guiana era uma voz ativa na denúncia de que a exploração petrolífera em território guianense era ilegal, já que acontencia no Bloco Stabroek, no mar da costa do Essequibo, território em disputa entre os dois países há quase 200 anos. Mesmo com o caso seguindo na Corte Internacional de Justiça, em Haia, a última movimentação relevante sobre o conflito territorial foi em 1966, com a assinatura do Acordo de Genebra, entre a Venezuela e o Reino Unido, que representava a Guiana, à época território britânico. No acordo, os países reconheceram o Essequibo como uma controvérsia em aberto, com ambas as partes se dispondo em encontrar uma solução pacífica, satisfatória e prática para ambos os países, se comprometendo em não tomar nenhuma medida unilateral até que a disputa seja totalmente resolvida. Isso nunca aconteceu. A República Bolivariana considerou, nos últimos anos, as concessões às petrolíferas estrangeiras como violações do acordo, afinal, marcam uma soberania guianense em uma disputa ainda não definida. Maduro convocou, em 2023, um plebiscito popular para o reconhecimento do Essequibo como território venezuelano, intensificou a denúncia em cortes internacionais e pressionou politicamente o país. Agora, com um rearranjo na correlação de forças e uma fragilização política do país vizinho, a Guiana vê seu caminho para seguir com a entrega de seus recursos naturais com menos obstáculos.
As “boas novas” seguiram. Com a guerra imperialista dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o preço do barril de petróleo gira agora em torno de US$100, com um recorde de US$126 do barril do tipo Brent em 30 de abril. Isso porque, sabendo de sua incapacidade de enfrentar diretamente o exército estadunidense em uma guerra convencional, a República Islâmica optou por estratégias de asfixiamento econômico e de pressão política contra os Estados Unidos e seus aliados no Oriente Médio, visando tornar a guerra insustentável no médio e longo prazo. Entre as principais medidas está o fechamento do Estreito de Ormuz, impedindo que provedores de petróleo da região pudessem seguir com suas exportações. Em períodos de funcionamento sem interrupções, se passa diariamente pelo trajeto cerca de 20% do petróleo global e, mesmo durante o período de cessar-fogo em que o estreito foi reaberto, os preços seguiram em alta. O aumento repentino foi benéfico justamente para países produtores que não precisaram cessar as vendas, como a Guiana. Segundo o The Economist, a atividade gera hoje uma receita semanal de 623 milhões de dólares que, se mantida a alta dos preços e se cumprida a expectativa da ExxonMobil de subir a produção diária do Bloco Stabroek para 940.000 barris ainda em 2026, a atividade poderia gerar neste ano 33 bilhões de dólares em receita bruta. Desse total, o Estado retém 14,5%, já que a exploração ainda se encontra no processo de recuperação dos custos iniciais por parte das empresas. A expectativa é de que, passada essa fase, o país fique com 52% do lucro, mas novos projetos e investimentos são constantemente anunciados, postergando o momento em que a Guiana passará a receber um percentual maior.
Mesmo com uma participação menor do que países como o Brasil, Venezuela ou os Estados Unidos para ceder seu solo, a entrada brutal e repentina de dólares na economia nacional tem consequências. Esse fenômeno na economia é chamado de “doença holandesa”, quando um recurso natural explorado de maneira excessiva causa uma supervalorização da moeda nacional, deformando a economia. Os dados confirmam as tendências. A média da conversão do dólar guianense para USD foi de 208,5 GYD para 1 USD em 2018, segundo dados do Banco da Guiana. Hoje, a conversão está em 209, se mantendo basicamente inalterada. Se considerarmos a inflação do país, de 2018 a 2024, de 23,1% segundo o Banco Mundial, e compará-la com a inflação dos Estados Unidos, que por sua vez apresentou, no mesmo período, uma taxa de 27,2%, concluímos que a moeda guianense se valorizou de maneira real frente ao dólar. Uma das consequências é o encarecimento geral do custo de vida no país: segundo o The Economist, o custo de alimentação e moradia aumentou 75% desde 2021, uma alta que não é acompanhada com um aumento da média salarial.
Outro aspecto fundamental a ser analisado é a inserção primário-exportadora da economia guianense. Desde o início da extração, em 2019, o país tem aprofundado sua vocação de fornecedor do petróleo bruto, sem valor agregado, enquanto segue a importação da gasolina e outros produtos derivados do petróleo. O projeto de uma refinaria nacional segue como um sonho prometido, mas ainda distante de ser posto em prática. Uma reprimarização muito precoce da economia nacional também é visível, com a participação da atividade petrolífera crescendo em sua participação do PIB, enquanto áreas essenciais para a diversificação e para a geração de empregos bem remunerados diminuem, como o setor industrial e a construção civil. A indústria representava 5% do PIB em 2019, já em 2025 representou apenas 1,9%. Já o setor extrativo, sem distinção de recursos, passou de 15% para 67,3% no mesmo período, segundo dados do Bureau of Statistics. Em grande parte, esse processo se deve ao fato de que, com a valorização da moeda, a indústria nacional se torna menos competitiva, com altos custos de produção. Ou seja, no caso guianês, o petróleo deixa de atuar como motor neutro de crescimento, e atua como uma força reorganizadora da estrutura produtiva nacional. A entrada massiva de divisas, a valorização real do câmbio e a expansão dos setores vinculados ao enclave petrolífero tendem a comprimir os ramos produtivos nacionais voltados à exportação, bloqueando possibilidades de diversificação industrial e subordinando a economia a uma especialização extrativa.
Com o avanço da guerra, as perspectivas são de aprofundamento da dependência. O endurecimento da Doutrina Monroe, que identifica e trata a América Latina e o Caribe como uma região a ser administrada pelos Estados Unidos, junto com novas iniciativas, indicam a necessidade e a disposição do sistema imperialista em drenar os recursos da região e mantê-la sobre seu espectro de influência. O petróleo da Guiana, de maneira geral, é considerado de alta qualidade, com um baixo teor de enxofre e alto grau API, o que se traduz em um petróleo de fácil extração e refino se comparado ao petróleo venezuelano, por exemplo. A geografia do país também favorece em muito os Estados Unidos. Localizada no norte da América do Sul, a Guiana representa petróleo de fácil acesso às refinarias estadunidenses, onde é refinado. Além da proximidade espacial, a hegemonia política estadunidense garante uma visão pró-mercado e pró-refinarias estrangeiras dominante no país, com uma oposição ao sistema atual praticamente inexistente. A garantia do fornecimento em uma região sem as tensões políticas do Oriente Médio e sem a possibilidade de encerramento de trajetos é essencial para enquadrar a Guiana como um sócio confiável para os Estados Unidos.
Diante desse cenário, a Guiana se encontra em uma contradição. O país deve decidir o papel do petróleo em sua economia, o colocando como um instrumento de soberania nacional ou como uma ferramenta que o aprisiona à condição de enclave extrativo subordinado aos interesses das grandes petrolíferas e das refinarias estrangeiras. A riqueza gerada no Bloco Stabroek poderia, muito mais do que a velocidade atual, financiar infraestrutura, educação técnica, industrialização, refino nacional, ciência aplicada e políticas de diversificação produtiva; mas, para isso, seria necessário romper com a lógica rentista que transforma o país em um simples fornecedor de petróleo bruto e receptor passivo de divisas. A superação da dependência guianense precisa redefinir o próprio lugar do país na divisão internacional do trabalho. Para isso, deve-se exigir renegociação dos contratos, fortalecimento do Estado, criação de uma política industrial voltada aos setores não petrolíferos, proteção da agricultura e da manufatura nacional, além de uma integração regional capaz de reduzir a tutela econômica e geopolítica dos Estados Unidos. Sem um projeto nacional de desenvolvimento, o atual crescimento do PIB poderá revelar uma distorção estatística, com prosperidade de superfície, sustentada por uma economia vulnerável, desigual e estrangeirizada.
Graduando em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisador do Núcleo de Estudos de Geopolítica, Integração Regional e Sistema Mundial (GIS) e do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Governos na América Latina do ICFS/UFRJ (Tamo’ Aqui). Se interessa por temáticas de recursos naturais na América Latina, estudos militares e relações entre mídia e poder público.
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